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Cátia Liczbinski

Mulheres Invisíveis: até quando?

O tema da Redação do ENEM deste ano "Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil" retrata a necessária valorização e reconhecimento da mulher que exerce funções no seu dia-a-dia.

O assunto se refere ao tempo dedicado da mulher em questões domésticas e de cuidado. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad- IBGE) Contínua 2022, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas, enquanto os homens, 11,7 horas. 

Ao referir-se à cuidados, enfatiza-se que a mulher realiza muitas funções nas quais não é valorizada, em razão de uma construção histórica social patriarcal e machista. A dupla jornada e as cobranças sociais são naturalizadas, ou seja, são vistas como normais, como: cuidar dos filhos e dos pais, sobrecarga com o trabalho fora e em casa - o famoso terceiro turno de trabalho -, cuidar da gestão da casa, do marido, etc. 

Ao inserir este tema no ENEM busca-se refletir e alcançar alternativas para que a sociedade reveja essa posição de cuidado da mulher. O assunto atinge as dores de mulheres que não têm o trabalho doméstico e de cuidados com crianças, adolescentes, pessoas com deficiência, homens e demais, contabilizado na economia formal, refletindo na menor participação econômica da mulher e na desigualdade de gênero no País.

Esse desafio envolve superar barreiras culturais, promovendo políticas públicas eficazes, revendo a desigualdade de gênero, implementando medidas que valorizem essas atividades essenciais e, educando os homens para que entendam que também são responsáveis pelos cuidados das pessoas e lares.

A história e cultura sempre colocaram a mulher nesse lugar de dona de casa, e o comportamento social da não valorização de seu trabalho também é histórico, situação que não se admite mais na atualidade. 

As sequelas são muitas para as mulheres, desde a  exaustão emocional e física, como: a qualidade do sono, o número de horas trabalhadas, a saúde mental como o burnout e até o suicídio, relacionados a descanso (ou a falta dele). 

Uma pesquisa realizada em 2022 pela Fundação Nacional do Sono dos Estados Unidos revela que 70% das mulheres têm dificuldade para dormir, diante de menos da metade dos homens (40%), que trabalham dentro e fora de casa, e ganham menos, sendo cobradas em dobro. Também verificou que nos divórcios, de acordo com o gênero, 20,8% do total de mulheres são abandonadas pelos maridos após o diagnóstico da condição de saúde, ante 3% dos homens. Ou seja, elas têm seis vezes mais chance de serem deixadas durante o tratamento de uma doença grave do que eles.

Em razão desta situação, o governo por meio dos seus Ministérios do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e das Mulheres criaram um grupo de trabalho para a elaboração da Política Nacional de Cuidados. 

A problemática social envolve um grupo prioritário que tende a ser esquecido. Uma questão extremamente sensível, invisibilizada e até então pouco refletida. 

É preciso urgente rever as políticas públicas com programas que possibilitem a conciliação entre trabalho remunerado e trabalho de cuidado, como ampliar as creches e instituições de cuidado de longa duração, para diminuir a sobrecarga das mulheres e a perpetuação da invisibilidade do seu trabalho. Esta é uma questão de justiça social.

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